Juçara Marçal - Encarnado (2014)


Juçara Marçal está longe de ser uma estreante. Já são mais de vinte anos de carreira iniciada com o grupo vocal Vésper, com quem lançou quatro discos, Flor D’Elis (1998), Noel Adoniran -180 Anos de Samba (2002), Ser Tão Paulista (2004) e Vésper na Lida (2013). Com o grupo A BARCA, Juçara lançou dois discos, Turista Aprendiz(2000) e Baião de Princesas (2002), além de participar do importante trabalho de pesquisa do grupo realizado em nove estados brasileiros entre 2004 e 2005 e que resultou no registro em áudio e vídeo de mais de trinta mestres de cultura tradicional, presentes nas caixas Trilha, Toada e Trupé e Coleção Turista Aprendiz. Ao lado de Kiko Dinucci, iniciou uma parceria que há alguns anos investiga e desenvolve um trabalho a partir das tradições afro-brasileiras. Dessa parceria já foram lançados Padê (2007) e os dois discos com o grupo Metá Metá (que além de Juçara e Kiko tem em sua formação o saxofonista Thiago França), são eles, Metá Metá (2011) e Metal Metal (2012). Depois dessa extensa carreira discográfica, Juçara Marçal se aventura agora em seu primeiro trabalho solo e o faz de maneira surpreendente. Encarnado (2014), mais do que um apanhado de sua longa trajetória artística, é quase uma nova estreia, apontando em uma direção arriscada e inesperada, inimaginável até para aqueles que acompanharam seu longo percurso até aqui.
 
Em sua definição espiritual, encarnado é o espírito que ocupa temporariamente um corpo humano. Encarnado também significa torna-se carne. Não por acaso,Encarnado, o disco de Juçara Marçal, tem seu repertório todo marcado pelo tema da morte. No entanto, mais que finitude, parece indicar uma busca por renovação, renascimento, um desejo por um "outro corpo", uma "nova carne". Logo na abertura do disco, pelos versos de O Velho Amarelo (Rodrigo Campos), Juçara reivindica: "Não diga que estamos morrendo, hoje não". Se a morte é inevitável, que seja encarada sem medo: "Vai, menina dos meus olhos, penetre entre os olhos, não há piedade, é só o fim, vai!". E que seja permitido escolher a hora e momento certos: "Quero morrer num dia breve, quero morrer num dia azul, quero morrer na América do Sul". O tema da morte vai aparecer de muitas maneiras ao longo do disco; de forma vingativa, em Damião (Douglas Germano): "Dá neles, Damião! Dá sem dó nem piedade e agradece a bondade e o cuidado de quem te matou"; pela chave romântica, em Queimando a Língua (Romulo Fróes / Alice Coutinho): "Não enxergo final, interrompo o tempo aqui em você"; e até mesmo em sua própria representação, em A Velha Capa Preta (Siba): "E a morte anda no mundo vestindo mortalha escura e procurando a criatura que espera condenação, quando ela encontra um cristão sem vontade de morrer".
 
Em Ciranda do Aborto (Kiko Dinucci) o tema aparece de maneira desconcertante, mais explícito, violento. Violência em nada apaziguada pela ambiguidade de seu título. Ciranda do Aborto já começa na faixa anterior Odoya (Juçara Marçal), uma vinheta que lhe serve quase como introdução. Mais do que introdução, serve de oração, uma benção à mãe Odoya: "Agô Yabá, bença mãe" e vai servir também como um pedido de ajuda para atravessar o momento tão doloroso descrito a seguir: "Passa na carne a navalha, se banha de sangue, sorri ao chorar, cobre o amor na mortalha pra ele não acordar, sente no fel deste beijo, o agouro da morte a se revelar". A letra prossegue, ganhando tensão: "vai despedaçado, vem meu bem querer, vem aqui pra fora, vem me conhecer" (aqui vale um adendo, não me lembro de outra vez na canção brasileira o tão repetido verso "meu bem querer", ter sido usado de modo tão agressivo e contraditório). O arranjo acompanha a tensão da letra e se desenvolve em um crescendo. Juçara cresce com ele. Amplificada pelo cavaquinho hitchcockiano de Rodrigo Campos, sua voz, qual lâmina, rasga os versos agudos da estranha ciranda de Kiko: "A ferida se abriu, nunca mais estancou, pra você se espalhar laceado, mas o chão te engoliu, toda a lida findou, pra você descansar no meu braço aos pedaços". Após um final caótico, que traduz musicalmente o horror do assunto tratado na canção, Juçara se desmancha, denunciando sua entrega à canção num suspiro invulgar.
 
Como suportar a audição de um disco construído a partir de tema tão profundo, quanto desagradável? A resposta está na voz de Juçara Marçal. Sob seu canto se revelam belezas escondidas e insuspeitas. E ele não cessa, um instante sequer. Juçara canta, mesmo quando não está cantando. Canta quando fala, na fala itamariana de E o Quico (Itamar Assumpção). Canta quando grita, o grito pós-tropicalista de Não Tenha Ódio no Verão (Tom Zé). Canta a "voz" dos (poucos) instrumentos presentes no disco, o sax e o pocket piano de Thiago França, a rabeca de Thomas Rohrer, mas principalmente, Juçara canta as guitarras de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos. A polifonia rítmica e as melodias fraturadas (des)construídas por Kiko e Rodrigo, que desestabilizam a harmonia, fazendo cambalear a canção, encontraram no canto de Juçara o elemento catalisador perfeito na linguagem musical inovadora e original que vêm desenvolvendo em dupla há algum tempo, especialmente com o Passo Torto, grupo do qual fazem parte ainda, Marcelo Cabral e Romulo Fróes. De um lado, os ruídos, a sujeira, os riffs de influência punk de Kiko. De outro, as melodias elegantes, precisas, fruto da formação violonística de Rodrigo. Essa junção de universos musicais tão distantes, aliada à profunda influência do samba nos trabalhos individuais de cada um, vem construindo um vocabulário desconhecido, novo na música brasileira. Pela voz de Juçara, as conquistas de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos atingem um outro patamar.
 
Lembro de Torquato Neto e sua célebre fala: "Um poeta não se faz com versos, é o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela." Seguindo a cartilha de Torquato, ao discorrer sobre a morte, Juçara nunca esteve tão viva. Ao se reinventar, não só abriu novas possibilidades a si mesma, mas à própria música brasileira. Seu disco é lançado em um época em que a canção popular perdeu há tempos a importância na formação cultural do nosso país. Talvez seja muito menos ouvido e discutido do que de fato Juçara e o Brasil mereciam. Mas servirá desde já e por muito tempo ainda, de antídoto para o discurso nostálgico e paralisante dos profetas do fim da canção. Estes deveriam prestar atenção ao que diz em alto e bom som Juçara Marçal: Não diga que estamos morrendo. Hoje não! (Texto: Site Oficial).
 
 

 
Discografia
 
Senha dos arquivos: brrock

 
Encarnado (2014)
01. Velho Amarelo
02. Damião
03. Queimando a Língua
04. Pena Mais Que Perfeita
05. Odoya
06. Ciranda do Aborto
07. Canção pra Ninar Oxum
08. E o Quico?
09. Não Tenha Ódio no Verão
10. A Velha da Capa Preta
11. Presente de Casamento
12. João Carrança




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