Luziluzia - Discografia


Luziluzia, pretérito imperfeito do verbo luziluzir, parece lamentar as pequenas nostalgias do que poderia ter sido. E pode vir a ser tanto uma beleza singela quanto uma feiura elaborada, com músicas à beira da melancolia num dia ensolarado.

A transitoriedade entre o caos e a calmaria agrega elementos rítmicos da música brasileira a uma liberdade despretensiosa. Um tanto dessa banda começou no auge da vitalidade dos 14 anos de Raphael e João.

Moravam no interior de Goiás, num lugar onde a coisa mais excitante a se fazer era música. Anos depois, em Goiânia, conheceram Ricardo e formaram a banda Riverbreeze.

Com letras em inglês, fizeram várias viagens e tocaram em muitos festivais. Apesar da diversão, a banda acabou quando já era hora. E o tempo parado fez muito bem; quando se reuniram, encontraram também alguma juventude de outros tempos. Alguma vontade de criar sem pensar no que vai dar. Benke veio tocar guitarra e a banda se fechou no estúdio por um mês, criando arranjos para melodias e letras engavetadas, que só existiam no violão, no papel, ou numa outra realidade mais abstrata. (Texto: Balaclava).



Come On Feel The Riverbreeze

A capa cinza de Come On Feel The Riverbreeze (2014, Balaclava), registro de estreia da banda goiana Luziluzia, em nada representa o rico catálogo de cores expostas pelo grupo no decorrer da obra. Trata-se de uma barreira natural, como um amontoado de galhos e rochas capazes de ocultar a passagem para o lado mais impressionante e pouco explorado de uma praia. Fuga do óbvio, o debut assumido por (ex-)integrantes das bandas Boogarins e Riverbreeze é exatamente uma quebra de pequenas convenções e fórmulas estáticas, uma tentativa em agrupar harmonias tropicais e acordes psicodélicos sem necessariamente mergulhar no óbvio.
 
Contrariando o título em inglês, a obra assumida por Raphael (baixo e vocal, ex-Riverbreeze e Boogarins), Benke (guitarra, Boogarins), João Victor (guitarra e sintetizadores, ex-Riverbreeze) e Ricardo (bateria, ex-Riverbreeze) cresce a partir de um cardápio de versos assinados em bom português. Ambientado dentro do mesmo universo lisérico-nonsense de As Plantas Que Curam(2013), estreia da conterrânea/parceira Boogarins, o registro e suas 11 faixas dançam em um ambiente torto onde a única regra é não fazer sentido algum. Ou quase isso.
 
Como Summertime revela logo nos primeiros instantes do disco, Come On Feel The Riverbreeze se manifesta como uma morada alternativa para que canções de amor, hinos pós-adolescentes e versos de evidente apelo cotidiano possam se acomodar sem compromisso. Na contramão do trabalho apresentado por grupos como Holger, Tereza e demais representantes das emanações litorâneas/tropicais brasileiras, a estreia dos goianos está longe de ocupar espaço ou definir regras específicas. É apenas um disco leve, um agrupado de sensações românticas, tímidas ou chapadas, mas que usa do próprio descompromisso para pescar o ouvinte.
 
Conduzido com extrema leveza do primeiro ao último acorde, o debut da Luziluzia é um trabalho raro em se tratando do uso apurado das melodias e versos. Basta observar o desenvolvimento da pegajosa Tempo Tanto Faz, canção que elimina todo o caráter “sintético” do Strokes da fase Is This It (2001), ao mesmo tempo em que ecoa impregnada pelas emanações típicas do rock dos anos 1960/1970. Caso fosse lançado há uma ou duas décadas, a estreia dos goianos seria classificada sem dificuldades como um disco “para tocar nas rádios”, afinal, canções acessíveis ocupam todos os espaços do registro.
 
Livre da pressão em resolver todas as canções dentro de um mesmo contexto poético ou instrumental, a estreia da Luziluzia acerta justamente ao brincar com o experimento. Não, não se trata da necessidade em colecionar ruídos ou arranjos complexos, mas em saborear diferentes gêneros e temáticas com jovial liberdade. Dentro desse exercício, a banda mergulha no lado pop da neo-psicodelia (Cosmic Melodrama), resgata melodias esquecidas da década de 1960 (Polinésia) e soa tão íntima do rock dos anos 2000 (Alegria), quanto da cena alternativa dos anos 1990 (Monólogo do velho louco).
 
O mais atraente dentro da flexibilidade estética do álbum não está no passeio por entre décadas, tendências e estilos, mas em perceber como tudo se relaciona de forma coerente ao longo da obra. Representação natural dos próprios integrantes – todos com 20 e poucos anos -, Come On Feel The Riverbreeze é uma obra estimulada pela herança do rock clássico, mas traduzida por um quarteto de artistas que cresceram com as experiências lançadas musicalmente na década passada. (Texto: Miojo Indie).
 




Discografia

   
52 Hz (2013) [EP]
01. Longe Não Mais
02. Summertime
03. Monólogo do Velho Louco



Come On Feel The Riverbreeze (2014)
01. Summertime
02. Existir
03. Polinésia
04. Alegria
05. Tempo Tanto Faz
06. Eu Caio
07. Torpe
08. Longe Não Mais
09. 52 Hz
10. Cosmic Melodrama
11. Monólogo do Velho Louco



EP 1/3 (Concerto Pra Caixas Pequenas) (2016) [EP]
01. Primavera
02. Faxinação
03. Tchau Tchau
04. Percebe Essa Ternura?




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