As Bahias e a Cozinha Mineira - Discografia


Assucena Assucena e Raquel Virgínia, ambas 27 anos, são conhecidas na Faculdade de História da USP (Universidade São Paulo) pelo mesmo apelido: Bahia.
 
O que é que essas Bahias têm? Uma causa em comum: transsexuais, cantam para espantar males como o machismo e a homofobia.
 
Assucena nasceu em Vitória da Conquista (BA). Raquel, paulistana, morou anos em Salvador, onde cantava axé em trio elétrico.
 
Elas são vocalistas da banda paulista As Bahias e a Cozinha Mineira, que lançou em novembro de 2015 um álbum em sintonia com as discussões feministas que dominaram os últimos meses, em hashtags como #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto.
 
"Mulher" fala de mulheres, no plural, em músicas como "Uma Canção Pra Você (Jaqueta Amarela)", "Josefa Maria" e "Reticências". "Apologia às Virgens Mães", outra faixa, vai assim: "Menina de saia de gozo pré-extinto/ quantos tempos bordaram o calado bordel de teu instinto?".
 
Gal Costa é a musa das novíssimas baianas, que criaram o projeto junto com o colega de USP Rafael Acerbi Pereira, mineiro (guitarra e violão). O Clube da Esquina também entra no balaio de influências, assim como a inglesa Amy Winehouse e os tropicalistas em geral.
 
Assucena escolheu esse nome em homenagem à personagem de Carolina Dieckmann na novela "Tropicaliente" (Globo, 1994), a doce Açucena. É também o nome de uma flor comum no sertão.
 
Para a cantora, a vontade de se "assumir" (depois ela se corrige e diz preferir o verbo "revelar") brotou junto com o álbum –que começou a ser feito em 2012 –, após uma "fase depressiva" no curso de história.
 
Ela nasceu numa família com "valores morais judaicos-cristãos" e sempre sentiu pesar o "dever burguês" de abraçar uma identidade que lhe era estranha.
 
Assucena cita o poema "Tabacaria", de Fernando Pessoa (sob o heterônimo Álvaro de Campos), para falar sobre a "tristeza de não poder se manifestar como eu no mundo".
 
Escreveu o poeta: "Quando quis tirar a máscara/ Estava pegada à cara/ Quando a tirei e me vi ao espelho/ Já tinha envelhecido".
 
A baiana também temeu que envelhecesse junto com o "véu da hipocrisia".
 
E quando o tirou, sentiu que "dar a cara a tapa" poderia ser uma expressão mais literal que esperava. Numa festa da USP, já foi ameaçada de "apanhar se não fosse embora", conta. " Um rapaz me disse: 'Se encostar em mim, vai receber um murro. Vou quebrar a sua cara."
 
Mesmo entre as feministas, há uma linha radical que rejeita transsexuais com o argumento de que, grosso modo, elas vieram ao mundo com os privilégios do sexo masculino.
 
Assucena diz seguir a linha de Simone de Beauvoir (1908-1986): "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher". (Texto: Folha)
 

 
BIXA
 
"Olá, boa noite. Estamos ao vivo no programa da Assucena", diz Assucena Assucena, 29, enquanto olha para o seu celular. Entre uma cantarolada e outra e antes de começar um ensaio com sua banda, As Bahias e a Cozinha Mineira, a cantora fez um vídeo ao vivo em uma rede social para interagir com o público.
 
É uma noite fria de segunda-feira no estúdio Loop, em Pinheiros. Por lá, já passaram Metá Metá, Fabiana Cozza, Criolo e Emicida, entre outros. Ao lado de Assucena, estão a cantora Raquel Virgínia, 28, e o guitarrista Rafael Acerbi, 25, núcleo duro do grupo -que também é formado pelos músicos Carlos Eduardo Samuel, Danilo Moura, Rob Ashtoffen e Vitor Coimbra.
 
Os três se conheceram no curso de história da USP, em 2011 e, no final de 2015, lançaram o primeiro disco, o elogiado "Mulher". Agora, ensaiam as músicas de seu próximo trabalho, "Bixa", que estará disponível nas plataformas digitais a partir de 1º/9.
 
Com pegada pop eletrônica e dançante, o álbum teve produção musical de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral (conhecidos por seu trabalho com Criolo). "Sentimos falta de olhar para os sintetizadores, o pop e a linguagem digital em 'Mulher'", diz Acerbi.
 
No processo de composição, além de revisitar referências como Gal Costa e a tropicália, o grupo se voltou a nomes internacionais, como Michael Jackson. Assucena explica que a sonoridade do grupo é antropofágica, porque "come o que vem de fora e é somada às raízes brasileiras", defendendo que integra uma banda de MPB.
 
"A ideia de o CD ser pop e com músicas menores era para que ele fosse consumido pelas baladas e casas noturnas, pelos jovens", diz Raquel.
 
Há uma diferença no tom das mensagens de "Mulher" e "Bixa". No primeiro, existe um grito contra o preconceito que, no segundo, aparece disfarçado -as duas vocalistas da banda são transexuais.
 
Na faixa "Sua Tez", por exemplo, há uma crítica aos questionamentos impostos pela sociedade. "Falam que ser trans ou homossexual é artificial. A artificialidade é a domesticação do corpo", afirma Assucena.
 
Formado por dez músicas, o álbum brinca o tempo inteiro, de forma irônica e por meio de metáforas, com a dicotomia entre a natureza e o urbano. "Há um flerte com a cidade, sem perder as fábulas e as metáforas com os bichos", diz Raquel.
 
Levada ao pé da letra, essa natureza aparece nos próprios nomes de canções, como "Pica Pau" e "Urubu Coruja, Coruja Urubu". "Tem os bichos e tem as 'bixas'. O disco questiona a segunda natureza que o ser humano apresenta e que é artificial", diz Assucena.
 
Há uma referência ao disco "Bicho", de Caetano Veloso -que em 2017 completa 40 anos. Para Assucena, "'Bicho' é tanto a nossa delicadeza quanto a nossa brutalidade".
 
Quem andou por São Paulo recentemente pode ter se deparado com lambe-lambes estilizados com imagens e o nome "Bixa". "Tinha o lance de a bicha invadir a cidade. Tanto essa brincadeira no sentido de orientação sexual quanto no do reino animal", diz Raquel Virgínia.
 
Com vontade de trazer uma linguagem visual forte, a banda vai lançar, para cada canção, um "lyric video" (filmete com a letra) correspondente. (Texto: Folha)



Discografia
 

Mulher (2015)
01. Apologia Às Virgens Mães
02. Josefa Maria
03. Lata D'água Na Cabeça
04. Esperança No Cafundó
05. Lavadeira Água
06. Ó Lua
07. Comida Forte
08. Foi
09. Uma Canção Pra Você
10. Melancolia
11. Mãe Menininha do Gantois
12. Fumaça
13. Reticências


Bixa (2017)
01. Um Doido Caso
02. A Isca
03. Dama da Night
04. Mix
05. Universo
06. Urubu Coruja, Coruja Urubu
07. Tendão de Aquiles
08. Drama
09. Pica-Pau
10. Sua Tez

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